Arquivo de agosto, 2011

Seria perder tempo demais pensar no que não se pode ver

Posted in Poemas on 24/08/2011 by A palavra inaudita

Pé ante pé

e cheio de frases feitas

entrou em casa

mesmo sem saber exatamente onde estava

mesmo não querendo estar em lugar nenhum

 

já faz tanto tempo

 

Sem coragem

ligou o rádio em uma estação qualquer

na única estação em que seu rádio sempre ficava

 

No começo não prestou atenção

naquela hora nada lhe interessava

 

Ficou por lá

sentado no sofá

dois dedos de conhaque

e um vazio que insistia em lhe doer

 

Ficou pensando

em como Neruda conseguira escrever “Cem sonetos de amor”

 

Parecia impossível

demais

 

Quando se deu conta de si

(ainda estava vivo afinal)

Bowie falava com ele

 

Não, não era Bowie

era alguma dessas bandas novas que regravam músicas velhas pra ver se conseguem chegar a algum lugar

Não, não era o Bowie

mas que se foda

era dele que dava pra lembrar

e quando o cara cantava que ele seria rei

sua mente estava em absoluto silêncio

 

um silêncio absurdo

 

E ele sentia

que toda a sua vida caberia no tempo daquela canção

 

Ele imaginou que sua vida caberia no tempo daquela canção

atento a tudo que não pudera fazer

 

Ele imaginou que sua vida caberia no tempo daquela canção

ao mesmo tempo em que via o tempo se esvair dentro de si mesmo

até que amanhecesse

 

Ele viu sua vida esvair-se em todas possíveis variáveis

e dentro disso um ponto de onde podia ver a totalidade de universos

e polos opostos se tocando e se repelindo e se tocando

e desejos e sonhos e viagens em cinco dimensões

e catástrofes e marés e calmarias e luzes absolutas

 

viu sua vida esvair-se entre carros abandonados e corações perfeitos

entre crianças brincando na rua e corações abandonados

 

viu Caulfield

trocando de lugar e caindo junto com as crianças

 

viu sua vida esvair-se por entre prédios e maçãs

 

e nada o tiraria de lá

 

É, podemos ser heróis

afogando-nos em copos rasos de conhaque

entre vidros e líquidos que turvam a visão

 

seis minutos

seis minutos e pouco

 

Ele quis tudo que jamais…

que não poderia ser

que nunca pensara

que pudesse se lembrar

 

No instante em que tudo fez sentido

em que sentiu que podia também nadar como os golfinhos

chorar como eles

até o céu cair sobre sua face e unir-se ao mar

 

No instante em que tudo fez sentido

tudo acabou

 

Queria estar vivo

não por um dia

mas apenas por aquela canção

 

Durante aquele tempo

nada o tiraria dali

Chien

Posted in Poemas on 09/08/2011 by A palavra inaudita

Um cão andaluz

Salvador Dali

ou uma música dos Pixies

 

o silêncio

o ruído

a dor

 

e o nada

 

o que nos interessa

é a loucura

 

porque tudo que anda por aqui

tudo que é vida real

não passa de irrealidade

 

o que nos interessa

são olhos arrancados

para que o choque não os cegue

 

porque tudo que passa por aqui

não passa de estacas

golpeando nossos cérebros

 

com uma dose maciça de anestésico

fórceps

ou um bisturi