Arquivo para outubro, 2011

Um lugar qualquer

Posted in Poemas on 23/10/2011 by Geraldo Maciel

(um diálogo com o cinema de Richard Linklater)

– Você já pensou na sua vida

como se ela tivesse tomado um caminho completamente contrário

àquilo que você imaginou que seria,

como se você tivesse tomado um caminho errado demais

e agora você tivesse que corrigir tudo?

– Já. Penso nisso o tempo todo.

– Sabe o que mais? Sinto como se houvesse pregos em meu cérebro.

E toda vez que eu penso nisso sinto um vazio

que só pode ser ocupado por você.

– …

– É. Eu sei. Eu não me importaria

se meu corpo agora se desfizesse

e só restassem átomos invisíveis.

– E você quer saber se eu me importaria?

– Não sei. Você recolheria meus átomos

mesmo que não pudesse tocá-los e faria que eu

me sentisse vivo de novo

depois de tanto tempo?

Você me abraçaria e diria

que o mundo não é lugar para nós ficarmos sozinhos?

Você estaria disposta

a finalmente criarmos nossas melodias,

repetindo poemas antigos?

Você me deixaria tornar tudo isso eterno?

– A existência seria menos dolorosa.

– Um  pensamento ou uma certeza?

– Há certezas?

– Há tentativas.

– Nada é fácil.

– Poderia ser.

– Não poderia. Não precisamos saber…

– … se o mundo será menos doloroso.

Só precisamos…

– … invadir a cidade de mãos dadas

e permanecermos essencialmente nós.

– Mesmo longe, saber que existimos.

– E se fugirmos pra um lugar qualquer,

onde só importasse

quem nós formos dali em diante?

Eu te abraçaria, você me abraçaria,

seríamos apenas nós e nossas melodias.

– O mundo não importa.

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vertical

Posted in Poemas on 21/10/2011 by Geraldo Maciel

incertos momentos de verdade tão inexplicável que não somos

autorizados a esquecê-los, apagá-los, removê-los, pois ressoam

em nossa já tão frágil existência, em nossos

ouvidos, mãos, bocas, em nossa completude como líricas

inaudíveis a qualquer um.

 

Inexplicáveis, imanentes, agora intangíveis por

ninguém, embora eternos e imutáveis.

ausência

Posted in Poemas on 18/10/2011 by Geraldo Maciel

(em memória da Professora Sonia Sachs)

cobre a cidade

uma sensação de vazio.

entre nós

as cinzas voam.

 

a inevitabilidade,

a ironia – 

sei que ferem -,

mas restamos nós.

 

não há a quem se possa perdoar:

prédios caem a partir do chão

sem verbos, uma vertigem absurda.

resta a certeza de que não estaremos lá.

 

a cidade

nunca será igual.

pensamentos

perdem-se em nós.

 

não sei onde estaremos em vinte anos,

mas certo é que algo persistirá,

já que há muito de eterno no inevitável,

alimentando o peso do intangível vazio.

4 minutos

Posted in Poemas on 16/10/2011 by Geraldo Maciel

quatro minutos

o tempo

entre a pergunta

e a resposta que não veio

 

quatro minutos

parecem pouco

mas são tempo demais

e a resposta nunca veio

 

e então desapareces

como a névoa que cobre a cidade

mas dissipa-se ao nascer do sol

contudo é tão bela

que não nos damos o direito

de esquecê-la

 

4 minutos

entre o concreto e o intocável

entre o real e o inimaginável

entre o sonho e a ausência

 

4 minutos

e por estradas nunca trilhadas

enganei-me por sobre as direções

e nunca soube como voltar