Arquivo de novembro, 2011

disintegration

Posted in Poemas on 20/11/2011 by A palavra inaudita

o tempo passa

e a gente sente cada vez mais

que a noite é eterna

que a areia cobre nosso coração

que os olhos úmidos vão se desintegrar

que haverá uma colisão dentro de nós

que choverão facas superafiadas em direção às nossas retinas inférteis

que a cidade estará em perene cinza

que os corpos se estilhaçarão

que os vidros virarão fumaça

 

o tempo passa

e a gente sente cada vez menos

e novamente as melodias são retomadas

Posted in Poemas on 16/11/2011 by A palavra inaudita

cansa demais esperar por respostas

que sei que não vão chegar

meu coração é agora

e eu não vou dançar conforme suas músicas

nem ser conduzido por seus passos perfeitos

que não significam nada

meu coração é agora

e nada é pra sempre

nem mesmo essa dor que parece nunca acabar

sei que haverá outros mundos outros sóis outras dores

haverá ausências e respostas nunca ditas

sei que quase nada é certo

mas entre quases e apenas

cantarei minhas próprias canções

ainda que nelas corram nossas melodias

Um conto de duas cidades

Posted in Poemas on 14/11/2011 by A palavra inaudita

Há um rio cortando aquele vale.

 

Ele. Ela.

Tão estáticos,

tão distantes.

A finitude que os separa

também os unirá

um ao outro,

a outros.

Há limites.

 

Não se tem muito o que dizer

quando a chuva cai

e tudo que se vê são clarões

dividindo o céu,

que se assemelha àquelas duas cidades.

Há um rio cortando aquele vale.

Mas, mesmo assim,

ele sente a presença dela.

Tão próximos,

tão distantes,

como um filme de Win Wenders

ou uma canção há muito esquecida dentro de um armário.

 

Mesmo com rios e clarões

separando as cidades

e os corpos,

ele sufoca ao ouvir sua respiração,

sabendo que ela não está lá,

ele se afoga em suas lembranças ,

ao vê-la submersa em pensamentos,

ele chora todas as suas lágrimas,

enquanto seus olhos permanecem invisíveis,

ele se sente o tempo todo nela,

tranca-se no peso de seu vazio,

ele brinca em seus jardins,

ela finge felicidades perenes,

ele sente seu gosto pelos poros,

tantas promessas de eternidade.

 

Em seu rosto promessas e ilusões

dão concretude ao que nunca aconteceu.

Como o rio que corta aquele vale.

 

Nada nunca pareceu tão real

quanto o dia em que percebeu

que se perderam para sempre –

em si mesmos,

sem suas distâncias,

mantendo apenas

tudo que rompia suas almas.

Se jamais suas mãos se tocassem,

não permaneceriam seus casulos.

As montanhas, as estradas,

a cidade, as cidades,

os carros, o fim dos dias,

a essência, dois lugares.

E talvez

ele nunca se perguntasse

por que teimavam

em manter-se

continuamente

como duas cidades

em um vale

cortado por um rio.

manifestações involuntárias de dor e palavras

Posted in Poemas on 12/11/2011 by A palavra inaudita

tem dias em que a pior coisa que pode acontecer na sua vida é acordar depois de um sonho em que você era feliz

porque de um jeito ou de outro

mesmo querendo evitar

você vai comparar tudo o que viveu no sonho

(e às vezes as sensações são mais reais do que qualquer outra que você já teve)

com a porra da sua vida

e todos os seus sentidos vão parecer novos já que vão doer tanto que vai parecer que nunca foram usados

mas o que vai doer de verdade e fazer sangrar e sofrer e querer sair correndo de onde quer que você esteja

é a sensação de que o mundo caiu na sua cabeça com muita força e várias vezes

é a sensação de impotência que você vai sentir diante de tanta coisa podre à sua volta

é a certeza de que mesmo que você estique os braços ao máximo não vai alcançar o que quer

é a certeza de que aquele sonho é mesmo um sonho e que não importa o que você faça

está distante pra caralho e você é o cara mais sozinho do universo

agora e pra sempre

a cidade se ergue à sua frente e

aquilo tudo que pra tanta gente parece tão pouco e pra você é tão importante quanto a essência da vida

parece estar do outro lado do mundo

e realmente está