Arquivo de abril, 2012

Espírito do tempo

Posted in Poemas with tags , , , on 24/04/2012 by A palavra inaudita

“Houve um dia

uma música

um segundo

um amor

de cortar os pulsos.”

 

Sim, eu sei.

A ideia não é original.

Mas também sei que há muito tempo nada é.

 

Talvez seja por isso que escrevo

ou talvez por outro motivo qualquer.

 

O que agora me interessa é que essa ideia dói.

Tanto quanto essa canção de cortar os pulsos que me assombra a alma

nessa época de amores partidos e falta de imaginação.

 

Pode ser que tenha chegado o momento em que nada mais deve ser dito

e que, por isso, nossa existência se constitua apenas de silêncios sequenciais.

 

Pode ser que seja esse mesmo silêncio que nos torna exatamente o que somos:

um nada tão grande e poderoso que nos condenamos à autotortura e à pseudoexecução.

 

Ouçamos as canções que nos deixaram

enquanto externamos toda a nossa ambivalência

rasgando-nos ao meio para podermos trilhar caminhos opostos

e ilharmo-nos fora de nós.

 

Outsiders leitores invejosos de Allen Ginsberg mandando a América se foder.

 

Onde estariam nossos pensamentos bárbaros,

aqueles que nos assolaram e assombraram antes de os pulsos cicatrizarem?

Estamos novamente na estrada e a música não escapa desse fluxo.

 

Teus lábios representam o amor irreal

preso ao surrealismo de um filme de David Lynch.

Teus lábios são esse amor e essa canção

de cortar os pulsos.

 

Esse é o mundo, esse é o tempo.

Nossa vez passou, mas ainda seremos,

mesmo porque se nada é original

isso não é nossa obrigação.

 

Existimos em meio ao nada com uns trocados no bolso

e a vontade desse minuto.

sons imaginários

Posted in Poemas on 20/04/2012 by A palavra inaudita

à mesa

de um bar

o olhar

encara

a câmera.

 

uma luz

ao fundo,

prenúncio

dos fins.

e sim

 

a novos olhos

que vejam,

estejam

segundos além.

e ninguém

 

se atreverá

a desvelar

o que estiver

encoberto

entre as chamas

 

dessa imagem.

dedica a noite

ao dia

que se inicia

aos cacos

 

de um mundo vão

em que olhos são

os momentos

intensos

de recriação.