Arquivo para agosto, 2012

Marylou

Posted in Poemas with tags , , on 28/08/2012 by Geraldo Maciel

Eu vi o crânio aberto de Allen Ginsberg e toda a poesia que jorrava dele para a boca dos novos poetas e falsos hipsters do século XXI

e por séculos e séculos não houve iguais ou poréns ou pesares apesar de momentaneamente nascer e morrer algum Dean Moriarty disposto a foder com qualquer coisa que se possa chamar de vida

e mesmo diferentes aparecerem novos outros corpos do chão desta cidade entre partos indolores e pequenos pequenos sussurros de desespero pungente

entre sons vindos de um horizonte que não existe mais mesmo que caminhemos ao seu redor e isso seja fisicamente impossível

bem como a porra do meteoro que já não o era ao cair e formar uma imensa cratera onde caberia toda a poesia do mundo salvo os malditos

que condenados a caminhar sobre a Terra se alimentariam de nada em bares abandonados à beira da estrada

enquanto o anacronismo invade nossos corpos com violência ao som dos berros de Kurt Cobain

e eu penso em você tornando-me um observador dos espasmos da cidade que emite seus uivos em meio à fumaça que exala de nossas bocas em direção às últimas árvores eternamente fálicas em um corpo que jaz

e eu penso em você enquanto Jack Kerouac caminha e sonha e entra em comunhão com o espírito de Baudelaire fumando Rimbaud ao mesmo tempo em que Apollinaire chove

e eu penso em você mesmo que o be-bop não exista mais ou que não estejamos em Frisco ou Nova Iorque ou Denver e na verdade Paul McCartney tenha se tornado o maior

e eu penso em você com o rosto molhado de lágrimas e de uma chuva imaginária que tornaria os dias mais poéticos e menos químicos

e uma expressão icônica surge como um totem por trás de meus olhos que explodem em sangue sujando todo o chão onde antes houvera sido

no mesmo instante em que não há novos deuses para enternecer nossa alma ao espalhar a vingança por aí lavando as calçadas

por onde caminhamos e caminharíamos sempre que estivéssemos presentes a todas as manifestações regadas ao suor que lubrificava os corpos

as pupilas as papilas a pele ao som de um órgão construído de cadáveres que outrora trataram a vida como sua puta exclusiva em meio a tantos outros

e eu penso em você no banco da frente de um carro em uma estrada que sabemos ambos que não vai dar em lugar algum

e eu penso em você em alto mar clamando por alguém que nunca vai chegar e dar sentido a uma existência completa e totalmente voltada para o agora que mistura todos os gostos possíveis

e eu penso em você saliências e reentrâncias e chamo por um deus sem nome com um solo de guitarra depois que o saxofone se calou.

Eu penso em você e troco seu nome pelo de uma personagem de um livro e me calo sobre mim mesmo.

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Tudo gira no mesmo lugar

Posted in Poemas with tags , , , on 01/08/2012 by Geraldo Maciel

Que tal me dizer

que há uma lua escondida atrás daquelas nuvens?

Que tal me dizer

e lembrar que a vida não precisa ter tanto peso?

 

Ainda é escuro,

mas o que escurece não é o lá fora.

Ainda é negro,

mas enxergo o que não poderia.

 

O sangue, as veias, o farol.

O pânico, o grito, o caminho.

A música, o vácuo, o sentido.

A ausência, a saudade, o íntimo.

 

Presente no silêncio

um raio corta um céu que desconheço;

segue-se o estrondo,

e tudo segue misterioso.

 

As mentiras caem

no mesmo lugar de onde partiram.

Caem e cobrem-se,

cobrem-me, cobram-me, serpentes.

 

Que tal apagar as nuvens

e provar finalmente que não há nada?