Alma

Posted in Poemas on 13/07/2015 by Geraldo Maciel

Acordar

e perceber que às vezes não há nada a se fazer

além de esperar o tempo necessário,

sabendo que resta

a busca

por uma alma que às vezes se esconde

e que precisa ser encontrada,

lapidada

e transformada em algo novo.

 

Acordar.

E, enquanto o sândalo perfumar a sala,

saber que existe muito que não se perdeu

entre os cacos que se espalharam.

 

Acordar.

E saber-se

entre tudo que não se sabe.

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Eras tu

Posted in Poemas on 08/07/2015 by Geraldo Maciel

Na primeira vez em que vi teu nome, só pude imaginar quem caberia em um nome tão forte e doce ao mesmo tempo. Não sabia quem eras.

Na primeira vez em que vi teu rosto, tudo mudou. Vi que não era teu nome, mas eras tu. Eras aquilo que não podia ser nomeado. Eras aquilo com que eu havia sonhado. Teu nome, forte e doce, era insuficiente para te nomear.

Enquanto caminhavas em minha direção, eu sabia que teus passos causariam avalanches e que qualquer montanha tremeria sob teus pés. E eu acreditei.

Acreditei que seríamos tudo que o mundo nunca viu. Acreditei que serias o motivo de meus versos e de meus roubos a outros poetas.

Acreditei que arrombarias todas as portas da minha vida e que as fechasse somente quando quiséssemos ficar sós.

Acreditei naquele dia, acreditei em todos os outros dias e ainda acredito.

Nunca deixarás de ser o que foste para mim: magnífica demais para caber em teu nome.

Por mais ou por menos que tenhamos feito, agora sei que consigo conter minhas explosões, canalizar algumas e liberar outras: apenas as que nos façam bem.

Porque sei que minhas explosões mais bonitas eras tu. As incômodas… não serão mais vistas.

Reformo agora a casa que existe dentro de mim, para que nela caibas plenamente – com o tamanho e a força de um nome em que não cabes. Com tua doçura. Com tudo que és.

Pequeno furto a Manuel Bandeira

Posted in Poemas on 02/07/2015 by Geraldo Maciel

O que amo em ti não é tua beleza

Mas a beleza que há em ti

Não amo tuas formas perfeitas

Mas a perfeição de seus detalhes

Não amo tua voz quando cantas

Mas as canções que nascem em tua voz

Não amo quando toco tua pele

Mas a tua pele e sua intangibilidade

Não amo a cor de teus olhos

Mas a profusão de cores que eles criam

Não amo teu jeito de caminhar

Mas o caminho que percorres em mim

Não amo tua pureza

Mas a tua purificação

Não amo tua vida

Amo apenas tua plenitude

Na estrada

Posted in Poemas on 02/07/2015 by Geraldo Maciel

Hoje a estrada pareceu mais longa

Não consegui contar os quilômetros que faltavam para chegar

como antes eu costumava fazer

Porque cada quilômetro que passava

antes significava que estava mais próxima a hora de voltar

Então eu recontava os quilômetros do caminho de volta

que eram exatamente os mesmos

mas que naqueles instantes me traziam de volta para casa

.

Hoje a estrada pareceu mais longa

porque não contei os quilômetros

.

Porque não havia para onde voltar

tudo em seu lugar

Posted in Poemas on 28/06/2015 by Geraldo Maciel

ainda chego em casa

e ao girar a chave

espero abrir a porta e saber

que teus passos novamente marcaram nosso chão

que tuas pequenas coisas voltaram a se multiplicar

que teus sons e teus silêncios mais intensos voltaram a preencher o vazio dos dias

.

ainda chego em casa

e quero deixar o dia lá fora

e me perder em nossos braços

que são nossos e não do mundo

que se desviam e se encontram a cada segundo

que jamais se esqueceriam de nós em tempo algum

.

ainda chego em casa

e espero ver teus olhos castanhos

preenchendo de lava o frio dos invernos

que um dia prometemos que seriam nossos

que foram nossos ao unir-se nosso sangue

que se acalentaram e esqueceram-se de si

.

ainda chego em casa

e quero ver

tudo em seu lugar.

quando as sombras chegam

Posted in Poemas on 08/06/2015 by Geraldo Maciel

quando as sombras chegam e levam

longe gritos que sabemos nos pertencer

esperamos que um grito outro surja no ar

e que esse grito retome outro dado antes

ganhe uma forma sólida e visível

e nos ensine novamente nossa própria voz

para que possamos nos dar as mãos

e dizer um ao outro que caminho tomar

para novamente termos nossos olhos dentro de nós

e que eu não te fira

nem te doa com a aspereza de minhas mãos

e que eu não te arda

nem te chova com a rudeza de minhas gotas

e que nossos dedos

nem nossas palmas se possam desenlaçar

e antes que te leves

levemo-nos em nosso leve relampejo

Sob águas indecisas

Posted in Poemas on 26/12/2014 by Geraldo Maciel

Hoje quando vinha para casa começou a cair uma chuva que parecia indecisa entre a possibilidade de uma tempestade ou uma simples garoa

Então comecei a pensar na água que batia no para-brisa do carro e no que me impelia para casa

O problema foi que assim como a chuva não fazia a escolha entre sua força ou delicadeza

eu não tinha motivo para entrar em casa

pois eu sabia que quando entrasse não haveria nada lá

não haveria nada aqui onde estou

O motivo de eu voltar para casa está longe

longe

E eu queria que as gotas a trouxessem para mim ou ao menos que fizesse os dias passarem

com a força do vento

com a gravidade inevitável

com toda a impossibilidade da natureza

Eu quero que o dia passe para que novamente o tempo traga a única razão para que tudo haja

e que depois o tempo nunca acabe